Cartas que dançam ao Sul é um projeto transdisciplinar entre dança, cinema e literatura. Um conjunto de células coreográficas que partem de provocações epistolares e transformam-se em filmes-ensaios endereçados à ficção globalizada que nomeou-se como Sul do mundo.
Resultado do etnocentrismo da modernidade colonial, a ficção cartográfica e geopolítica do Sul erigiu-se às custas da invasão e expropriação de territórios como Abya Yala, deixando como rastro o genocídio de milhões de seres humanos e como herança o falogocentrismo do patriarcado colonialista. A branquitude europeia desenha há séculos mapas em que os povos invadidos estão abaixo, como forma de submissão iconográfica. O mesmo projeto político foi atualizado pelas teses eugenistas que deram origem a uma teoria dos mundos no século passado.
Se a herança cartográfica e política dos exploradores criou a ficção do Norte Global como pacto narcísico da supremacia branca masculina, tendo como resultado uma globalização unilateral e hegemônica, seu acúmulo de privilégios provenientes da destruição do planeta fez o contrário. O capitaloceno redesenha o mapa dos exploradores, anunciando suas responsabilidades e a decadência de sucumbir à ganância.
Partindo dessas provocações, redesenhar mapas e motivos de dança em territórios doutrinados pelo acúmulo de riquezas e de alienação é o que faz essas epístolas coreográficas serem endereçadas ao Sul Global. Uma forma de buscar outros interlocutores, mas também outros pontos de partida. Ao escrever dançando àqueles que herdaram a devastação de seus territórios e culturas, acompanho a genealogia crítica do pensamento anti-colonial que resistiu às invasões e expropriações, permanecendo na memória dos sobreviventes. Escrevo com Tibira, Zumbi dos Palmares, Anastácia, Antônio Conselheiro, mas também com Ailton Krenak, Grada Kilomba, Djamila Ribeiro, Jota Mombaça, Hija de Perra, entre tantas outras pessoas.
Cartas que dançam ao Sul são um conjunto de depoimentos que dançam as dissidências de um corpo indisciplinado que atualmente vive em Lisboa e, portanto, no Norte Global. Endereço essas cartas dançadas, então, ao país em que nasci e cresci, como forma de denúncia política, abstração poética e investigação sobre as lacunas éticas, políticas e iconográficas ainda presentes na vida pública portuguesa, suas lógicas de reprodução epistêmica na Europa e, por consequência, de manutenção da expropriação na ficção do Sul Global.
Mas estas cartas não se escrevem apenas ao Brasil, elas pressupõem um vínculo latino-americano e caribenho, uma coexistência com populações afetadas pela expropriação durante séculos e que neste momento ainda seguem em diáspora forçada por todo o mundo, considerando também um diálogo com pessoas aliadas. Afinal, com quais lacunas de sentido se deparam nossos corpos diante das mazelas do colonialismo e da destruição ecológica, ainda presentes no incessante avanço do capitalismo financeiro e industrial? Se essas violências reproduzem-se contra corpos insubmissos à modernidade colonial é porque coloca-se em xeque a acumulação e o consumo como a única forma de produção de subjetividades na metrópole.
Assim, Cartas que dançam ao Sul emerge como uma pesquisa teórico-prática que visa a repensar a lógica de representação imposta ao corpo dançante, partindo de suas experiências enquanto pensamento que vem dançando para a criação de iconografias dissidentes ao colonialismo patriarcal, contexto fundante do atual regime tecnocientífico no ocidente e também responsável por produzir limites à humanidade com as fronteiras impostas por instituições seculares, entre elas os Estados-nação.